A
Igreja é a primeira a dar o mote, apelidando
o tango de "dança do demónio". A alta sociedade acata respeitosamente o aviso dos clérigos
e o tango circunscreve-se a pequenos redutos populacionais, constituído
por pessoas de baixa condição social. A entrada
do tango nas danças de salão em Portugal far-se-á apenas
no final dos anos 20 e durante os anos 30, por força da
voz de um uruguaio radicado na Argentina: Carlos Gardel. "Mi
noches tristes" e "Mi Buenos Aires Querido" são
os primeiros tangos de Gardel a agitar a alta sociedade portuguesa
da época. As senhoras conhecem as letras de cor, os homens
apaixonam-se pela dança, mas é sempre sob olhares
de reprovação que um par se afoita a dançar
um tango nos bailes da burguesia. Como dança de salão,
porém, o tango é tolerado, sob o pretexto de se tratar
de "danças de exibição", fazendo
sucesso nas sociedades recreativas. A morte
de Gardel (uma espécie de James Dean dos anos 30) em 1935,
deixa em convulsão milhares de fãs, e os seus filmes
continuaram a ser exibidos até à exaustão
em todo o mundo.
É no
início dos anos 50 que aparece uma escola de tango vanguardista,
onde se notam influências de Bach, Strawinsky e do Cool Jazz.
Inicia-se então um novo ciclo tanguero, cujo
expoente máximo é Astor Piazzola. Nos salões
dos ateneus e clubes onde as filhas das famílias ricas debutavam,
a valsa continuava a ser a dança de abertura dos bailes,
mas ao tango já era dado algum espaço: recatado e
em fim de noite.
Da
confusão à revolução musical
O
tango que ganha raízes em Portugal tem pouco a ver com
a dança sensual que punha a alta sociedade portuguesa
escandalizada em público, mas em polvorosa em festas
privadas. O tango dançado naqueles espaços selectivos
era uma versão soft que viria a conhecer o
seu apogeu com uma estrela mexicana elevada a sex symbol:
Sara Montiel.
O
analfabetismo musical dos portugueses não lhes permitia
fazer a diferença, razão porque as músicas
de "El último Cuplé", "Mi Ultimo
Tango" ou "La Violetera" eram dançadas
como se de verdadeiros tangos se tratassem. (n.r. terá tido
aí origem a expressão "Isso é tudo
tanga"?)
A
revolução musical e dançante dos
anos 60 erradicou o tango das salas de baile portuguesas, com
os jovens a repartirem as suas preferências entre as
melodias delicodoces da canção francesa e os
sons mais trepidantes dos Beatles ou dos Rolling Stones. A
voluptuosa "Je t’aime, moi non plus" representa
o extertor da música francesa, dando lugar aos sons
anglo-saxónicos.
O
tango é remetido para o guetto de grupos recreativos
como os "Alunos de Apolo" em Lisboa, ou o "Clube
Fenianos" no Porto, onde animava os "chás
dançantes" de bailarinos mais idosos.
Só no
final da década de 90 o tango conhece um novo impulso
em Portugal. Em 1997, abre no Porto o clube "Tang’r
Easy", mas o boom acontece no ano seguinte durante
a "Expo 98". No pavilhão da Argentina realizam-se
exibições diárias e, nesse mesmo ano realiza-se,
em Lisboa, a Cimeira Mundial do Tango. A bailarina portuense
Solange Galvão e o músico bonaerense Alejandro
Laguna decidem abrir na capital uma escola de tango (Dance
Factory) e ao domingo recebem alunos na Barraca.
O
tango-dança estava de regresso a Portugal, assistindo-se
a uma crescente adesão dos portugueses à música
do Rio La Plata. Desde então, o número de praticantes
e os locais de aprendizagem têm crescido um pouco por
todo o país, como que acompanhando o recrudescimento
do interesse pelo tango na capital argentina.
Os
festivais de tango em Portugal ganham raízes, tendo-se
realizado este ano, em Lisboa, o terceiro certame do género,
de 25 a 29 de Maio. |