Em
mais uma?... Estas eram muito especiais. Após três lanços de degraus, que o corrimão
estrategicamente plantado a meio aliviava, a porta de ferro pintada
de cinzento tinha uma placa perturbadora: "Entrada de artistas". Sentia-se
um nervoso miúdinho em toda a malta do ateliê de webjornalismo...
Para lá daquela porta o mundo como o conhecíamos
deixou de fazer sentido. Era o mundo do tango que tomava conta
de nosotros. O bar
dos artistas, gerido por uma simpática família (mãe
e filho), com as suas paredes decoradas com escritos em todas as
línguas do mundo, mais parecem querer dizer na linguagem
universal da arte e do espectáculo: "Também
eu passei por aqui! Também eu fiz sonhar a plateia do Coliseu!"
Uma
dança que é um momento único
O
tango nasceu, no início do século passado, na
Argentina. Primeiro fechado nos bares e cabarés de Buenos
Aires. As senhoras "respeitáveis" estavam
proibidas de dançar o que obrigou a pares apenas masculinos.
Mas a força da expressão dos corpos foi mais
forte que a lei dos homens. De porto em porto, saltou fronteiras,
atravessou oceanos, e claro, apresentou-se na cidade-luz. E
a dança virou moda. Paris foi, na década de trinta,
o palco das lendas e dos mitos: as orquestras de Carlos Gardel,
de Astor Piazzolla e muitos outros.
Paixão
melancólica, pura intuição, o improviso
e o inesperado. O milongueiro tem o dom de interpretar a música
e conduzir o seu par dando-lhe liberdade de movimentos. É pois...
o sonho e o objectivo de muitos homens: dar liberdade às
mulheres e esperar que a sua feminilidade lhes peça
apoio.
O
tango é a linguagem dos sonhos, do desejo, do movimento
que todos ambicionam mas que só alguns alcançam.
Mas que sensação... Ter uma mulher disponível
nos braços escrevendo com o brilho do olhar uma longa
provocação. A linguagem mundana do porteño é um
código secreto só entendível pelo homem
e pela mulher que se olham nos olhos com a insustentável
leveza e intuição dos seus pés. Dizem
os entendidos que o mesmo tango nunca é dançável
da mesma maneira pelo mesmo par. Pois! Mesmo, Mesma, Mesmo!
Mas é a única forma de escrever (e descrever)
uma dança que é um momento único, irrepetível.
Como irrepetíveis são todos os segundos da nossa
vida.
Olhei
fixamente para os dois elevadores junto ao bar dos artistas
e pensei: «Monstruoso! Se eles falassem faria com eles
a entrevista da minha vida. Quantas vedetas, quantas discussões,
quantos amuos, quantos vedetismos, quantas stars carregaram
já nos botões que levam aos camarins dos segundo,
terceiro e quarto pisos». Mas os meus pensamentos foram
abruptamente interrompidos pela abertura das portas... Na minha
frente, mais um par preparava-se para actuar: Los Hermanos Macaña.
Fazem a diferença. São simplesmente extraordinários
na feminina opinião (e eu respeito). Tinhamos conversado
durante a milonga de boas-vindas e no workshop de
quinta-feira. São o protótipo do anti-vedetismo.
Simples, divertidos, elevam o tango à sua forma mais
humana: parece fácil e divertido.
Em
palco, Roberto Herrera e Jorgelina Guzzi, dançavam e
faziam brilhar a luz da luz.
A orquestra típica Sans Souci e o extraordinário cantor
Walter "El Chino" Laborde perfumaram a sala com os quatro bandoneones,
os quatro violinos, um contrabaixo e um grand piano. Actuações
igualmente extraordinárias de Sebastian Arce & Mariana Montes (beleza
superior) e Juan Capriotti & Graciana Romeo. Falta referir a Dana Frigoli
e o Pablo Villarraza, em definitivo, um dos pares sensação do
mundo tanguero.
Fica
um agradecimento e um desejo. Parabéns à Lusitango
pelo 3.º Festival Internacional de Tango e viva o próximo |