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Uma visita aos camarins
 
 
 

Um momento único

E se alguém nunca sentiu o desejo de transgredir... é porque nunca viu dançar o tango.

 
 
 
por José Carlos Lages
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    E o vento parou. Por um momento a lua permaneceu sorridente por cima da Rua do Coliseu. O grupo subia uma íngreme ladeira que desembocava em mais uma das infindáveis escadinhas das sete colinas de Lisboa.
 

Em mais uma?... Estas eram muito especiais. Após três lanços de degraus, que o corrimão estrategicamente plantado a meio aliviava, a porta de ferro pintada de cinzento tinha uma placa perturbadora: "Entrada de artistas".

Sentia-se um nervoso miúdinho em toda a malta do ateliê de webjornalismo... Para lá daquela porta o mundo como o conhecíamos deixou de fazer sentido. Era o mundo do tango que tomava conta de nosotros.

O bar dos artistas, gerido por uma simpática família (mãe e filho), com as suas paredes decoradas com escritos em todas as línguas do mundo, mais parecem querer dizer na linguagem universal da arte e do espectáculo: "Também eu passei por aqui! Também eu fiz sonhar a plateia do Coliseu!"

Uma dança que é um momento único

O tango nasceu, no início do século passado, na Argentina. Primeiro fechado nos bares e cabarés de Buenos Aires. As senhoras "respeitáveis" estavam proibidas de dançar o que obrigou a pares apenas masculinos. Mas a força da expressão dos corpos foi mais forte que a lei dos homens. De porto em porto, saltou fronteiras, atravessou oceanos, e claro, apresentou-se na cidade-luz. E a dança virou moda. Paris foi, na década de trinta, o palco das lendas e dos mitos: as orquestras de Carlos Gardel, de Astor Piazzolla e muitos outros.

Paixão melancólica, pura intuição, o improviso e o inesperado. O milongueiro tem o dom de interpretar a música e conduzir o seu par dando-lhe liberdade de movimentos. É pois... o sonho e o objectivo de muitos homens: dar liberdade às mulheres e esperar que a sua feminilidade lhes peça apoio.

O tango é a linguagem dos sonhos, do desejo, do movimento que todos ambicionam mas que só alguns alcançam. Mas que sensação... Ter uma mulher disponível nos braços escrevendo com o brilho do olhar uma longa provocação. A linguagem mundana do porteño é um código secreto só entendível pelo homem e pela mulher que se olham nos olhos com a insustentável leveza e intuição dos seus pés. Dizem os entendidos que o mesmo tango nunca é dançável da mesma maneira pelo mesmo par. Pois! Mesmo, Mesma, Mesmo! Mas é a única forma de escrever (e descrever) uma dança que é um momento único, irrepetível. Como irrepetíveis são todos os segundos da nossa vida.

Olhei fixamente para os dois elevadores junto ao bar dos artistas e pensei: «Monstruoso! Se eles falassem faria com eles a entrevista da minha vida. Quantas vedetas, quantas discussões, quantos amuos, quantos vedetismos, quantas stars carregaram já nos botões que levam aos camarins dos segundo, terceiro e quarto pisos». Mas os meus pensamentos foram abruptamente interrompidos pela abertura das portas... Na minha frente, mais um par preparava-se para actuar: Los Hermanos Macaña. Fazem a diferença. São simplesmente extraordinários na feminina opinião (e eu respeito). Tinhamos conversado durante a milonga de boas-vindas e no workshop de quinta-feira. São o protótipo do anti-vedetismo. Simples, divertidos, elevam o tango à sua forma mais humana: parece fácil e divertido.

Em palco, Roberto Herrera e Jorgelina Guzzi, dançavam e faziam brilhar a luz da luz.
A orquestra típica Sans Souci e o extraordinário cantor Walter "El Chino" Laborde perfumaram a sala com os quatro bandoneones, os quatro violinos, um contrabaixo e um grand piano. Actuações igualmente extraordinárias de Sebastian Arce & Mariana Montes (beleza superior) e Juan Capriotti & Graciana Romeo. Falta referir a Dana Frigoli e o Pablo Villarraza, em definitivo, um dos pares sensação do mundo tanguero.

Fica um agradecimento e um desejo. Parabéns à Lusitango pelo 3.º Festival Internacional de Tango e viva o próximo

 
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