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Os amantes de tango na celebração da milonga
 
Literatura sobre tango e Carlos Gardel
 
Todas as letras para ler... e cantar
 
 
 

Dança maldita, ou elixir da juventude?

Nasci no Porto, no seio de uma família burguesa com ascendência brasileira. Habituei-me, desde tenra idade, a conviver paredes meias com o fado e o samba, como símbolos musicais das duas pátrias que me conceberam e pariram.

 
 
 
por Carlos Barbosa de Oliveira
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O tango era encarado, no meio familiar e social portuense, como um género menor, uma “dança maldita” praticada nas “boîtes” por mulheres de mau porte, em missão de sedução libidinosa a clientes ocasionais.

 
Enquanto jovem, descodificava então o tango como uma dança erótica que acabava inevitavelmente na cama de uma qualquer pensão esconsa. Claro que também o Povo dançava o tango nas sociedades recreativas... mas esse Povo, diziam-me, era “pobre e inculto”, tinha formas “animalescas” de se expressar e o tango mais não era do que a demonstração dessa realidade.

“Pobre Povo ignorante que não tem cultura para dançar coisas nobres como a valsa!” - lucubrava eu nos meus recatados momentos de reflexão, enquanto diante da pantalha assistia às aproximações entre o Poppey e a Olívia Palito. A verdade é que nem sabia bem o que era o tango. Dançar “aquilo” era pecado e ponto final, invocava o pároco da minha freguesia que procurava cativar-me para o reino de Deus.

Foi aos 14 ou 15 anos que o tango entrou pela primeira vez na minha vida. Inexplicavelmente, os discos de Sara Montiel entraram em profusão lá em casa e, ao ouvi-los, rapidamente percebi o sentido das palavras do velho pároco. Cada canção da “diva” mexicana me atiçava o rubor da adolescência. Percorrendo-me da cabeça aos pés, como um frémito, despertava-me os sentidos que as capas de alguns discos, de onde despontavam os seus seios nus, ainda mais acalentavam. Não havia dúvida...o tango era mesmo pecado! E as minhas visitas ao pároco, para a confissão mensal, começaram a ser mais espaçadas e esquivas.

Outros ritmos fizeram parte da minha adolescência. Arrecadei a Sara Montiel e o tango no baú das recordações com o rótulo “Música para velhos” (ignorando deliberadamente os efeitos pecaminosos que pode provocar em adolescentes), e parti para outra.

Muitos anos mais tarde, já entrado na casa dos 40, razões profissionais levaram-me à Argentina, onde vivi vários meses. O calor do povo argentino, aliado à inigualável presença das porteñas, fizeram-me remexer no baú das recordações e desenterrar as memórias sobre o tango. Tornei-me cliente habitual da Feria de San Telmo - que todos os domingos anima a Plaza Dorrego - , onde vários pares levam os turistas a reviver a história do tango. Tornei-me frequentador do El Viejo Almacen, ponto de passagem obrigatório para qualquer turista que visite Buenos Aires e não seja indiferente ao tango. Assisti a espectáculos no velho café Tortoni, entrei nos teatros da Avenida Corrientes para ver todas as peças que havia sobre tango.

Alma caridosa, sabedora da minha paixão por tudo o que tem rótulo argentino e presenciando as minhas reacções durante as milongas a que me levou, convenceu-me que deveria ter umas aulas, numa das muitas escolas de Buenos Aires. Fez o favor de me acompanhar ao longo de quatro ou cinco penosas sessões, ao fim das quais percebeu que o meu “pé de chumbo” se recusava a acompanhar o ritmo. Nunca mais ensaiei um único passo mas todos os anos, quando regresso a Buenos Aires, a minha preocupação é conhecer os novos locais onde há tangos e milongas.

Nos últimos anos, essa é uma tarefa ciclópica, pois o tango canta-se e dança-se em toda a parte, como se fosse tão essencial à vida dos porteños, como o simples acto de respirar. Ao entrar nesses locais sinto-me como um voyeur, pois nunca danço, mas renova-se em mim a frescura de uma adolescência perdida. O sangue ferve-me nas veias como quando ouvia os discos da Sara Montiel. Numa perfeita simbiose, sinto-me parte integrante de uma milonga. Numa palavra: rejuvenesço.

Será que o pároco da minha freguesia tinha mesmo razão, ou o tango é, apenas, o elixir da juventude? Talvez um bom psicanalista me saiba dar a resposta...

 
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