“Pobre
Povo ignorante que não tem cultura para dançar
coisas nobres como a valsa!” - lucubrava eu nos meus recatados
momentos de reflexão, enquanto diante da pantalha assistia às
aproximações entre o Poppey e a Olívia Palito.
A verdade é que nem sabia bem o que era o tango. Dançar “aquilo” era
pecado e ponto final, invocava o pároco da minha freguesia
que procurava cativar-me para o reino de Deus.
Foi aos 14 ou
15 anos que o tango entrou pela primeira vez na minha vida. Inexplicavelmente,
os discos de Sara Montiel entraram em profusão
lá em casa e, ao ouvi-los, rapidamente percebi o sentido das
palavras do velho pároco. Cada canção da “diva” mexicana
me atiçava o rubor da adolescência. Percorrendo-me da
cabeça aos pés, como um frémito, despertava-me
os sentidos que as capas de alguns discos, de onde despontavam os
seus seios nus, ainda mais acalentavam. Não havia dúvida...o
tango era mesmo pecado! E as minhas visitas ao pároco, para
a confissão mensal, começaram a ser mais espaçadas
e esquivas.
Outros ritmos
fizeram parte da minha adolescência. Arrecadei
a Sara Montiel e o tango no baú das recordações
com o rótulo “Música para velhos” (ignorando
deliberadamente os efeitos pecaminosos que pode provocar em adolescentes),
e parti para outra.
Muitos anos mais
tarde, já entrado na casa dos 40, razões
profissionais levaram-me à Argentina, onde vivi vários
meses. O calor do povo argentino, aliado à inigualável
presença das porteñas, fizeram-me remexer no baú das
recordações e desenterrar as memórias sobre
o tango. Tornei-me cliente habitual da Feria de San Telmo - que todos
os domingos anima a Plaza Dorrego - , onde vários pares levam
os turistas a reviver a história do tango. Tornei-me frequentador
do El Viejo Almacen, ponto de passagem obrigatório para qualquer
turista que visite Buenos Aires e não seja indiferente ao
tango. Assisti a espectáculos no velho café Tortoni,
entrei nos teatros da Avenida Corrientes para ver todas as peças
que havia sobre tango.
Alma caridosa,
sabedora da minha paixão por tudo o que tem
rótulo argentino e presenciando as minhas reacções
durante as milongas a que me levou, convenceu-me que deveria ter
umas aulas, numa das muitas escolas de Buenos Aires. Fez o favor
de me acompanhar ao longo de quatro ou cinco penosas sessões,
ao fim das quais percebeu que o meu “pé de chumbo” se
recusava a acompanhar o ritmo. Nunca mais ensaiei um único
passo mas todos os anos, quando regresso a Buenos Aires, a minha
preocupação é conhecer os novos locais onde
há tangos e milongas.
Nos últimos anos, essa é uma tarefa ciclópica,
pois o tango canta-se e dança-se em toda a parte, como se
fosse tão essencial à vida dos porteños, como
o simples acto de respirar. Ao entrar nesses locais sinto-me como
um voyeur, pois nunca danço, mas renova-se em mim a frescura
de uma adolescência perdida. O sangue ferve-me nas veias como
quando ouvia os discos da Sara Montiel. Numa perfeita simbiose, sinto-me
parte integrante de uma milonga. Numa palavra: rejuvenesço.
Será que o pároco da minha freguesia tinha mesmo razão,
ou o tango é, apenas, o elixir da juventude? Talvez um bom
psicanalista me saiba dar a resposta...