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O tango em Portugal
 
As origens do tango estão em África
 
Cinco fundamentos estéticos no tango
 
 
 

O fado e o tango

Não é fácil – e muito menos pacífico – estabelecer uma relação entre o tango e o fado. Muito se tem escrito sobre o assunto, mas é escassa a investigação credível.

   
 
 

por Carlos Barbosa de Oliveira

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    O nosso propósito neste dossiê é, apenas, realçar algumas das perspectivas que ao longo dos tempos têm sido dadas à estampa nesta relação (por muitos considerada espúria), entre dois géneros musicais que - independentemente de uma origem comum - têm semelhanças evidentes ao nível da acção (violência e vingança) e dos sentimentos que expressam (amor, ódio e paixão).
 

O musicólogo Rui Vieira Nery, autor do livro "Para uma História do Fado", rejeita liminarmente qualquer relação entre o tango e o fado. A opinião do ex-secretário de estado da Cultura de António Guterres está, porém, longe de ser consensual. O guitarrista António Chainho que, juntamente com a cantora Marta Dias e o dançarino Alejandro Laguna, percorreu o país com o espectáculo "O Fado e o Tango", tem opinião diversa. Ao mestre da guitarra portuguesa, não restam dúvidas: "A ligação entre tango e fado é algo verdadeiramente original que jamais se deverá perder." Igual opinião tem Dulce Pontes que empolgou plateias, em salas a abarrotar, por todo o país.

Polémicas à parte, resta a certeza que ambos nasceram em bairros humildes de zonas portuárias urbanas e, por coincidência, na mesma época: os anos 60 do século XIX.

A palavra tango significava, no dialecto africano, "o lugar fechado onde as pessoas se reuniam para tocar música e dançar". Foi nesses lugares de La Boca ou de Alfama que nasceram esses pontos de encontro de músicas ibéricas e africanas, cujas raízes alguns atribuem ao lundum, um ritmo africano traduzido para português como quilombo. A cultura ibero-americana, mais exuberante e expansiva, terá privilegiado a expressão corporal do lundum - que se traduziu na forma do tango - enquanto os portugueses, mais introvertidos, se terão deixado seduzir apenas pela melodia, dando origem ao fado.

Em abono dos defensores desta teoria, está o facto de o tango, na sua expressão vocal, exprimir estados muito idênticos aos do fado: vingança, violência e traição. Também, a nível de sentimentos, tango e fado relevam aspectos comuns: amor, ódio e paixão.

Do fadista ao fado

Mas se a origem do tango é mais ou menos consensual, o mesmo não sucede em relação ao fado. Em Portugal existe mais de meia centena de obras publicadas sobre o assunto, sendo uma das mais curiosas a de Alberto Pimentel.

Na opinião deste estudioso do fado, o fadista apareceu antes do fado e não cantava. Após a fuga da família real para o Brasil, as invasões napoleónicas criaram grande instabilidade, sucedendo-se os saques e os assaltos. As vinganças e os ajustes de contas propiciam o aparecimento desta personagem de melenas compridas e destro manejo da navalha, a quem pessoas sequiosas de vingança encomendavam "o fado de muita gente".

O fadista era temido por todos, gabando-se "em tascas mal iluminadas", dos seus feitos heróicos. Só quando conhece a guitarra portuguesa (de origem portuense) o fadista começa a cantar as suas proezas ao som daquele instrumento, dando origem ao fado, como expressão musical.

São muitas as teorias sobre as origens do fado, que rejeitam liminarmente a relação entre o fado e o tango, mas nenhuma delas é capaz de explicar as razões porque ambos surgem numa mesma época em pontos tão distantes do globo, reservadas numa fase inicial ao sexo masculino e expressando sentimentos comuns tão fortes.

Em 2002, em tertúlias realizadas na "Festa do Avante" e no Teatro S. Luiz, que antecederam a digressão de António Chainho, Fernando Alvim e Marta Dias a terras espanholas, foi realçada pelos intérpretes a fusão entre a música e a dança de Portugal e Argentina, como um testemunho da relação entre fado e tango.

Uma coisa é certa: se os musicólogos persistem em recusar a existência de raízes comuns entre fado e tango, os intérpretes de ambos os géneros esforçam-se por provar exactamente o contrário. A única excepção talvez seja Rao Kyao, que recentemente editou um disco onde pretende vincar a semelhança entre o fado e a música indiana.

 
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