O
musicólogo
Rui Vieira Nery, autor do livro "Para uma História
do Fado", rejeita liminarmente qualquer relação
entre o tango e o fado. A opinião do ex-secretário
de estado da Cultura de António Guterres está, porém,
longe de ser consensual. O guitarrista António Chainho que,
juntamente com a cantora Marta Dias e o dançarino Alejandro
Laguna, percorreu o país com o espectáculo "O
Fado e o Tango", tem opinião diversa. Ao mestre da
guitarra portuguesa, não restam dúvidas: "A
ligação entre tango e fado é algo verdadeiramente
original que jamais se deverá perder." Igual opinião
tem Dulce Pontes que empolgou plateias, em salas a abarrotar, por
todo o país. Polémicas à parte,
resta a certeza que ambos nasceram em bairros humildes de zonas
portuárias urbanas e, por coincidência, na mesma época:
os anos 60 do século XIX. A
palavra tango significava, no dialecto africano, "o lugar
fechado onde as pessoas se reuniam para tocar música
e dançar".
Foi nesses lugares de La Boca ou de Alfama que nasceram esses pontos
de encontro de músicas ibéricas e africanas, cujas
raízes alguns atribuem ao lundum, um ritmo
africano traduzido para português como quilombo. A cultura
ibero-americana, mais exuberante e expansiva, terá privilegiado
a expressão corporal do lundum - que se
traduziu na forma do tango - enquanto os portugueses, mais introvertidos,
se terão deixado seduzir apenas pela melodia, dando origem
ao fado. Em
abono dos defensores desta teoria, está o facto de o tango,
na sua expressão vocal, exprimir estados muito idênticos
aos do fado: vingança, violência e traição.
Também, a nível de sentimentos, tango e fado relevam
aspectos comuns: amor, ódio e paixão.
Do
fadista ao fado
Mas
se a origem do tango é mais ou menos consensual, o mesmo
não sucede em relação ao fado. Em Portugal
existe mais de meia centena de obras publicadas sobre o assunto,
sendo uma das mais curiosas a de Alberto Pimentel.
Na
opinião deste estudioso do fado, o fadista apareceu
antes do fado e não cantava. Após a fuga da família
real para o Brasil, as invasões napoleónicas
criaram grande instabilidade, sucedendo-se os saques e os assaltos.
As vinganças e os ajustes de contas propiciam o aparecimento
desta personagem de melenas compridas e destro manejo da navalha,
a quem pessoas sequiosas de vingança encomendavam "o
fado de muita gente".
O
fadista era temido por todos, gabando-se "em tascas mal
iluminadas", dos seus feitos heróicos. Só quando
conhece a guitarra portuguesa (de origem portuense) o fadista
começa a cantar as suas proezas ao som daquele instrumento,
dando origem ao fado, como expressão musical.
São
muitas as teorias sobre as origens do fado, que rejeitam liminarmente
a relação entre o fado e o tango, mas nenhuma
delas é capaz de explicar as razões porque ambos
surgem numa mesma época em pontos tão distantes
do globo, reservadas numa fase inicial ao sexo masculino e
expressando sentimentos comuns tão fortes.
Em
2002, em tertúlias realizadas na "Festa do Avante" e
no Teatro S. Luiz, que antecederam a digressão de António
Chainho, Fernando Alvim e Marta Dias a terras espanholas, foi
realçada pelos intérpretes a fusão entre
a música e a dança de Portugal e Argentina, como
um testemunho da relação entre fado e tango.
Uma
coisa é certa: se os musicólogos persistem em
recusar a existência de raízes comuns entre fado
e tango, os intérpretes de ambos os géneros esforçam-se
por provar exactamente o contrário. A única excepção
talvez seja Rao Kyao, que recentemente editou um disco onde
pretende vincar a semelhança entre o fado e a música
indiana. |