Como
surge o Festival Internacional de Tango em Lisboa?
O Festival surgiu quase de uma forma egoísta, pela necessidade que sentíamos
de ter, em Portugal, um conjunto de grandes artistas estrangeiros e usufruir do facto. Surge em paralelo a vontade de partilhar
isso com as pessoas. Também tínhamos vontade de dançar e conviver com
novas pessoas. Todas as comunidades culturais têm os seus eventos e este é o
nosso. Acabou por aparecer de forma natural.
Quais
são os desafios de realizar um evento desta envergadura?
O principal desafio é conseguir obter receitas suficientes para cobrir
os gastos do Festival. A nossa associação não tem fins
lucrativos e uma parte das receitas é doada à associação "Crianças
sem Fronteiras". Deste modo, o nosso grande desafio é conseguir
trazer a Portugal artistas de renome, sem que o público tenha que pagar
um preço exorbitante. Os preços do festival não são
populares, mas com o nível de artistas que temos, não podemos
baixar mais os preços. Os valores praticados são os mais baixos dos festivais congéneres a nível mundial.
Escolhemos primar pela qualidade e enquadrar este festival no contexto dos
grandes eventos europeus. É nosso objectivo continuar nessa senda.
E
têm conseguido cumprir esse objectivo?
Sim, conseguimos marcar Lisboa no quadro mundial do tango. Por exemplo, para além das cadeias nacionais de televisão, quem
filma o festival é a cadeia SoloTango, a maior cadeia Argentina de tango
e o canal mais visto na Argentina. É visto em 99% dos quartos de hotéis.
O Festival Internacional de Lisboa tem sido considerado pela crítica
como um dos melhores festivais de tango. Isto deve-se essencialmente
a um factor: conseguirmos trazer uma orquestra completa de tango, o que não é costume,
porque é mais barato trazer um quinteto. A música mais cativante é composta
para ser tocada por uma orquestra completa, de 12 elementos. Ou conseguirmos sempre trazer uma das melhores orquestras da actualidade...
O
financiamento é, portanto, feito apenas através
das receitas de bilheteira?
Não, temos duas fontes de receitas. Uma é efectivamente os bilhetes
comprados pelo público. Mas temos também patrocínios,
que não são fáceis de arranjar. Às vezes as pequenas
empresas patrocinam mais do que as grandes companhias. Este ano temos como
patrocinadores a HP, o El Corte Inglês...
Temos também patrocínios mais pontuais. Alguns deles não
são publicitáveis, feitos por pessoas ou empresas numa base de
mecenato anónimo.
Os patrocínios não são significativos. Queremos essencialmente
que o evento se auto-sustente mas por vezes acontece ter prejuízo.
Que
valores é que um evento desta envergadura move?
Falamos sempre em valores acima dos 200 mil euros. As viagens de avião
de Buenos Aires para cá são caríssimas. A estadia dos
artistas também não é barata. Fazemos questão de
os tratar bem e que eles fiquem com vontade de voltar.
E
quais são os cabeça de cartaz este ano?
Todos os artistas são cabeça de cartaz. O alinhamento é sempre
um problema. No entanto os artistas de tango sendo estrelas, não são snobs
e comunicam muito com o público.
Os artistas que vamos ver no palco estarão certamente nas milongas.
Aliás, o tango sai da milonga para o palco apenas porque é tão
forte que se justifica.
Uma outra particularidade do nosso festival é a improvisação.
Daí chamar-se Puro Tango. O alinhamento final é feito cinco minutos
antes de o espectáculo começar. Os artistas não precisam
de mais nada e cada espectáculo é diferente.
Como
tem sido a reacção do público? Acredita
que o espectáculo tem contribuído para criar mais
fãs de tango em Portugal?
Sim, sem dúvida. Isto acontece por dois factores. Um deles, é a
divulgação. Conseguimos mover um "chapéu" de
conhecimentos bastante grande. Durante o período do festival, as pessoas
ouvem falar mais do tango nos meios de comunicação. Por outro
lado, não conheço ninguém que fique indiferente quando
vê uma milonga ou um festival de tango. Não há meio-termo.
Ou se adora ou se odeia e cerca de 99% das pessoas adoram e querem aprender.
E
têm conseguido encher plateias?
Encher uma sala do Coliseu com um festival deste tipo, que não tem meios
para fazer uma divulgação de largos meses, não é fácil.
Mas o nosso objectivo não é esse. Aliás, a nossa expectativa
para um festival cultural que não se enquadra na cultura portuguesa é de
1000 pessoas e temos sempre conseguido exceder esse número.
O
número de espectadores tem crescido?
Não, tem-se mantido estável. Temos de ter em conta o tempo de
divulgação e há sempre muitas condicionantes. A oferta
cultural em Lisboa já é grande e as pessoas fazem as suas opções.
O festival costuma ter cerca de 1300 espectadores.
E
são essencialmente portugueses que participam ou vêm
pessoas de fora do país?
Costumam ser pessoas de fora, sobretudo da Europa. Mas, este ano, também
temos pessoas de outros sítios: dos Estados Unidos, do Canadá....
graças à rede de que falava há pouco.
Há muita gente que vem numa óptica de imersão total no
festival. Durante o dia vai às aulas, à noite tem as milongas
que acabam às cinco da manhã. No dia seguinte ao meio dia já estão
de volta às workshops.
Quais
são as suas expectativas em relação ao festival
deste ano?
As mesmas de sempre. Os nossos objectivos são muito simples:que o festival
seja bom, que as pessoas gostem dele e, essencialmente, que o número
de espectadores dê para cobrir as despesas do festival. Se essa meta
for atingida, continuamos a organizar o evento.
Como não temos fins lucrativos, não estamos agarrados à necessidade
de crescer ou de ter lucro.É claro que gostamos sempre de crescer
e evoluir, mas também depende sempre da capacidade de divulgação
que possuímos e do tempo livre que possamos dedicar a esta causa, na medida em que profissionalmente desenvolvemos a nossa actividade em outras áreas que não o tango ou a dança.
Todo o festival é organizado essencialmente por 4 ou 5 pessoas,
que têm as suas profissões. Nesta fase, na semana do festival, tiramos umas férias
para ajudar na divulgação, mas no quotidiano temos as nossas
obrigações
como toda a gente. Por isso, não temos mais pretensões do que
ter um festival com boa qualidade que as pessoas apreciem.
Ana
Pinto Martinho / Joana Ferreira Barros |