No
site que
criou, refere-se ao tango como uma paixão. Quando e como
nasceu o seu interesse por esta dança?
Nasceu em 1998, graças a um evento organizado em Lisboa, La
Cumbre
Mundial del Tango. Este evento é geralmente organizado em cidades onde não
existe tango argentino institucionalizado, para dinamizar o seu aparecimento.
Posso dizer que sou o resultado do sucesso desta iniciativa. Estava já relacionado
com as danças de salão (dançava há quatro ou cinco
anos),mas as danças estavam a tornar-se numa coisa muito standard, muito
técnica. Nessa fase entrei inadvertidamente na competição.
A necessidade do treino disciplinado e
tudo aquilo que o facto acarretava deixou de ser dança para passar a ser um desporto de competição. Percebi que necessitava de encontrar de novo o interesse pela dança.
Pratica
o tango com a sua mulher. Aprenderam a dançar numa escola
ou consideram-se autodidactas?
Considero que somos uma mistura de auto-aprendizagem e de ensinamentos
de escola. No início de qualquer actividade é essencial a formação. Aprendemos, de facto, muita coisa na
escola mas também conheço óptimos dançarinos que nunca tiveram
aulas de forma continuada. Como em qualquer outra disciplina, o resultado final é a soma da formação formal, informal, auto-aprendizagem e competências existêntes.
Onde
costumam praticar tango?
Eu e a minha mulher andámos numa escola criada por uns amigos. Um par
de bailarinos veio cá por ocasião da cimeira em 1998 e "obrigámo-los" a
ficar. A escola por eles criada, a Escola Argentina de Tango, é hoje
a maior escola em Portugal.
Mas eu digo que o tango aprende-se, para além do espaço-escola, na milonga. Enquanto que nas danças
de salão o par dança para fora, no tango o par dança para
si próprio. O mote principal é o prazer de dançar. Aprender é só um
meio para chegar ali, não é um fim em si mesmo.
A milonga é o ecossistema natural do tanguero. Se sente que
tem necessidade de aprender mais pode frequentar umas aulas, mas no fim acaba
por relacionar
o que aprendeu com o seu estilo natural. Isso é outra coisa que me apaixona,
porque não há dois pares iguais no tango. Entrou
no mundo do tango em 1998. Como vê a evolução
do tango em Portugal desde então em termos de números,
actividades....?
Como mero observador, fora do contexto, diria que é uma evolução
quase exponencial. Como elemento do contexto, diria que não avança
tão rápido como gostaria.
Quando falamos de tango, podemos apontar dois elementos distintos numa comunidade
tanguera: os tangueros e os milongueros.
Os milongueros estão virados para a dança em si. Do que gostam
mesmo é de ir à milonga. Os tangueros podem nem sequer ir à milonga.
Estão voltados para a literatura e a música. Ao falarmos da evolução
do tango em Portugal temos de ter em conta estes dois factores. Em termos de
música, o tango já existe em Portugal há muito tempo.
Talvez uma das primeiras grandes intérpretes portuguesas tenha sido a Olga Prates,
há já algumas décadas. Em termos de literatura, também há muita
gente que gosta da literatura latino-americana e, em especial, da que se relaciona com Buenos Aires e a sociedade rio platense.
Então
para se ser tanguero não é preciso saber dançar
tango...
Exactamente. Há muita gente apaixonada pelo tango sem saber dançar.
Mas não há milongueros que não saibam dançar. No
entanto, estes podem não se interessar pelas componentes da música
e da literatura. Aliás, no Festival de Tango temos essa dificuldade...
se pomos uma orquestra a tocar demasiado tempo com um cantor, as pessoas refilam
logo porque querem dançar. Se a música não favorece
a dança, as pessoas queixam-se.
Nestas
vertentes do tango, quais são as mais importantes para
si?
A dança e a música, sobretudo. A literatura vem por arrasto.
O meu primeiro contacto com o tango foi através da dança. A paixão
pela música e literatura surgiu a partir daí - embora seja um grande admirador de Borges e de outros autores Argentinos, é essencialmente na música que o nível mais elevado de aficion se mantem.
Falamos
do tango em Portugal, mas já teve oportunidade de ir à Argentina
e de praticar a dança no seu país de origem. Como
foi essa experiência?
A experiência sensorial não é muito diferente daquela que se pode encontrar pelo mundo- a escala sim. Estando
numa cidade em que cada noite há dez milongas e temos a hipótese
de escolha, torna-se mais interessante. E como em cada sítio há centenas
de pessoas que dançam bem, acaba por ser um contexto enriquecido e onde
nos sentimos perfeitamente à vontade, no nosso reino.
Mas o tango existe em quase todas as cidades do Mundo, talvez à excepção
do mundo árabe. Se for ao Japão, à Austrália ou aos Estados Unidos, bem como na Europa, há milongas em quase todas as cidades.
Há uma
rede de tangueros que existe em todas as cidades. Basta irmos à Internet
e depressa descobrimos onde se realizam milongas. Aliás, foi o facto
de irmos a festivais lá fora que nos fez trazer um festival de tango
a Lisboa. Achámos que as pessoas por cá não deviam de ter de viajar
para encontrar uma boa orquestra e bons bailarinos.
Ana
Pinto Martinho / Joana Ferreira Barros
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