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Agenda do FTL 2005
 
Comunicado da organização
 
 
 

Um tanguero lusitano

Augusto Fragoso é o presidente e um dos instituidores da mais importante associação de Tango em Portugal, a LusiTango, que organiza o Festival Internacional de Tango de Lisboa.

   
 
 
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O Cenjor.net falou com o tanguero para descobrir paixões e desafios que se escondem atrás do Tango. Uma entrevista de Ana Pinto Martinho e Joana Ferreira Barros.

 

No site que criou, refere-se ao tango como uma paixão. Quando e como nasceu o seu interesse por esta dança?
Nasceu em 1998, graças a um evento organizado em Lisboa, La Cumbre Mundial del Tango. Este evento é geralmente organizado em cidades onde não existe tango argentino institucionalizado, para dinamizar o seu aparecimento. Posso dizer que sou o resultado do sucesso desta iniciativa. Estava já relacionado com as danças de salão (dançava há quatro ou cinco anos),mas as danças estavam a tornar-se numa coisa muito standard, muito técnica. Nessa fase entrei inadvertidamente na competição.
A necessidade do treino disciplinado e tudo aquilo que o facto acarretava deixou de ser dança para passar a ser um desporto de competição. Percebi que necessitava de encontrar de novo o interesse pela dança.

Pratica o tango com a sua mulher. Aprenderam a dançar numa escola ou consideram-se autodidactas?
Considero que somos uma mistura de auto-aprendizagem e de ensinamentos de escola. No início de qualquer actividade é essencial a formação. Aprendemos, de facto, muita coisa na escola mas também conheço óptimos dançarinos que nunca tiveram aulas de forma continuada. Como em qualquer outra disciplina, o resultado final é a soma da formação formal, informal, auto-aprendizagem e competências existêntes.

Onde costumam praticar tango?
Eu e a minha mulher andámos numa escola criada por uns amigos. Um par de bailarinos veio cá por ocasião da cimeira em 1998 e "obrigámo-los" a ficar. A escola por eles criada, a Escola Argentina de Tango, é hoje a maior escola em Portugal.
Mas eu digo que o tango aprende-se, para além do espaço-escola, na milonga. Enquanto que nas danças de salão o par dança para fora, no tango o par dança para si próprio. O mote principal é o prazer de dançar. Aprender é só um meio para chegar ali, não é um fim em si mesmo.
A milonga é o ecossistema natural do tanguero. Se sente que tem necessidade de aprender mais pode frequentar umas aulas, mas no fim acaba por relacionar o que aprendeu com o seu estilo natural. Isso é outra coisa que me apaixona, porque não há dois pares iguais no tango.

Entrou no mundo do tango em 1998. Como vê a evolução do tango em Portugal desde então em termos de números, actividades....?
Como mero observador, fora do contexto, diria que é uma evolução quase exponencial. Como elemento do contexto, diria que não avança tão rápido como gostaria.
Quando falamos de tango, podemos apontar dois elementos distintos numa comunidade tanguera: os tangueros e os milongueros.
Os milongueros estão virados para a dança em si. Do que gostam mesmo é de ir à milonga. Os tangueros podem nem sequer ir à milonga. Estão voltados para a literatura e a música. Ao falarmos da evolução do tango em Portugal temos de ter em conta estes dois factores. Em termos de música, o tango já existe em Portugal há muito tempo. Talvez uma das primeiras grandes intérpretes portuguesas tenha sido a Olga Prates, há já algumas décadas. Em termos de literatura, também há muita gente que gosta da literatura latino-americana e, em especial, da que se relaciona com Buenos Aires e a sociedade rio platense.

Então para se ser tanguero não é preciso saber dançar tango...
Exactamente. Há muita gente apaixonada pelo tango sem saber dançar. Mas não há milongueros que não saibam dançar. No entanto, estes podem não se interessar pelas componentes da música e da literatura. Aliás, no Festival de Tango temos essa dificuldade... se pomos uma orquestra a tocar demasiado tempo com um cantor, as pessoas refilam logo porque querem dançar. Se a música não favorece a dança, as pessoas queixam-se.

Nestas vertentes do tango, quais são as mais importantes para si?
A dança e a música, sobretudo. A literatura vem por arrasto. O meu primeiro contacto com o tango foi através da dança. A paixão pela música e literatura surgiu a partir daí - embora seja um grande admirador de Borges e de outros autores Argentinos, é essencialmente na música que o nível mais elevado de aficion se mantem.

Falamos do tango em Portugal, mas já teve oportunidade de ir à Argentina e de praticar a dança no seu país de origem. Como foi essa experiência?
A experiência sensorial não é muito diferente daquela que se pode encontrar pelo mundo- a escala sim. Estando numa cidade em que cada noite há dez milongas e temos a hipótese de escolha, torna-se mais interessante. E como em cada sítio há centenas de pessoas que dançam bem, acaba por ser um contexto enriquecido e onde nos sentimos perfeitamente à vontade, no nosso reino.
Mas o tango existe em quase todas as cidades do Mundo, talvez à excepção do mundo árabe. Se for ao Japão, à Austrália ou aos Estados Unidos, bem como na Europa, há milongas em quase todas as cidades.
Há uma rede de tangueros que existe em todas as cidades. Basta irmos à Internet e depressa descobrimos onde se realizam milongas. Aliás, foi o facto de irmos a festivais lá fora que nos fez trazer um festival de tango a Lisboa. Achámos que as pessoas por cá não deviam de ter de viajar para encontrar uma boa orquestra e bons bailarinos.

Ana Pinto Martinho / Joana Ferreira Barros

 
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