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Dança dos deuses

Nostálgico, sensual, contestatório, rebelde, são adjectivos que servem na perfeição para descrever o que se passou sexta-feira, 27 de Maio, no Coliseu de Lisboa.

   
 
 
por Hugo Cunha
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Pode dizer-se que Lisboa foi capital do tango por um dia, ninguém no Coliseu ficou indiferente a um dos mais apaixonantes ritmos do século XX. O tango é apaixonante porque é uma dança tanto sensual como obscena.

 

Juan Pablo Echegüe apenas viu sexo no tango. Disse ser uma dança de fingidos. Ele em trajes de rufia aparenta amá-la incondicionalmente e protegê-la, quando apenas se quer aproveitar dela. Ela por sua vez finge entregar-se por amor e não por medo, mas o tango é muito mais do que isso, é alma e entrega.

Ao observar os pares que iam passando pelo palco do Coliseu, não pude deixar de observar a expressividade daquela dança. Com efeito, o tango tem algo de diferente das demais danças, fala-nos aos sentidos e tal como o mais puro dos fados suscita movimentos no espírito do espectador, pela alegria e entusiasmo, pela melancolia e dramatismo.

É um baile cheio de alma. Ao ouvir os passos dos bailarinos é como se eu próprio deslizasse pelo palco, mesmo estando sentado, apenas a ver. É verdadeiramente espectacular. É a busca incessante e desesperada pelo verdadeiro amor que nunca chega. Os bailarinos no palco encenavam o que parecia ser na sua desesperada imaginação uma autêntica e pura paixão. Daí a seriedade espelhada nos seus rostos, olhos nos olhos, um coração apenas.

O coliseu transpirou de emoção, transbordou de gente bonita, mas o espírito boémio também passou pelo palco. O lamento do acordeão da orquestra Sans Souci invadiu o espírito de todos quanto estavam presentes na sala.

Quando Roberto Herrera enlaçou a sua parceira na pista de dança foi divino ver os seus passos. Ele veste uma camisa vermelha e calça preta em balão, digna de um pirata, é o vilão. Ela veste um vestido largo e comprido de cor branca, os pés apresentam-se descalços, a donzela virgem. Ele tira-lhe o lenço que ela traz envolta do pescoço, dançam o tango. A sala explode em aplausos para uma das actuações mais fantásticas da noite.

Eu sou um amante e praticante de dança Hip Hop, que tal como o tango também nasceu nas ruas, nos subúrbios e nos bairros pobres. Nunca me despertou grande atenção, mas dizem que mais cedo ou mais tarde toda a gente se acaba por render ao tango. Então confesso: “chegou a minha hora”.

No Coliseu, o tango também se dançou ao som de um fado, dois ritmos que tantas semelhanças têm. Camané emprestou a voz, os bailarinos a sensualidade. Ela, bela com os cabelos presos, rodopiava numa saia de onde se abria uma generosa fenda. O ritmo que se ouve fala da vida real e da alma: “tenho medo de pensar, o meu mistério eu avivo se me perco a meditar”. É a união de duas culturas que muito têm em comum, Portugal e Argentina.

Parabéns a toda a organização do espectáculo e bailarinos, e até para o ano.

 
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