Juan
Pablo Echegüe apenas viu sexo no tango. Disse ser uma dança
de fingidos. Ele em trajes de rufia aparenta amá-la incondicionalmente
e protegê-la, quando apenas se quer aproveitar dela. Ela
por sua vez finge entregar-se por amor e não por medo, mas
o tango é muito mais do que isso, é alma e entrega.
Ao observar
os pares que iam passando pelo palco do Coliseu, não pude
deixar de observar a expressividade daquela dança. Com efeito,
o tango tem algo de diferente das demais danças, fala-nos
aos sentidos e tal como o mais puro dos fados suscita movimentos
no espírito do espectador, pela alegria e entusiasmo, pela
melancolia e dramatismo.
É um
baile cheio de alma. Ao ouvir os passos dos bailarinos é como
se eu próprio deslizasse pelo palco, mesmo estando sentado,
apenas a ver. É verdadeiramente espectacular. É a
busca incessante e desesperada pelo verdadeiro amor que nunca chega.
Os bailarinos no palco encenavam o que parecia ser na sua desesperada
imaginação uma autêntica e pura paixão.
Daí a seriedade espelhada nos seus rostos, olhos nos olhos,
um coração apenas.
O coliseu
transpirou de emoção, transbordou de gente bonita,
mas o espírito boémio também passou pelo palco.
O lamento do acordeão da orquestra Sans Souci invadiu
o espírito de todos quanto estavam presentes na sala.
Quando
Roberto Herrera enlaçou a sua parceira na pista de dança
foi divino ver os seus passos. Ele veste uma camisa vermelha e
calça preta em balão, digna de um pirata, é o
vilão. Ela veste um vestido largo e comprido de cor branca,
os pés apresentam-se descalços, a donzela virgem.
Ele tira-lhe o lenço que ela traz envolta do pescoço,
dançam o tango. A sala explode em aplausos para uma das
actuações mais fantásticas da noite.
Eu sou
um amante e praticante de dança Hip Hop, que
tal como o tango também nasceu nas ruas, nos subúrbios
e nos bairros pobres. Nunca me despertou
grande atenção, mas dizem que mais cedo ou mais tarde
toda a gente se acaba por render ao tango. Então confesso: “chegou
a minha hora”.
No Coliseu,
o tango também se dançou ao som de um fado, dois
ritmos que tantas semelhanças têm. Camané emprestou
a voz, os bailarinos a sensualidade. Ela, bela com os cabelos presos,
rodopiava numa saia de onde se abria uma generosa fenda. O ritmo
que se ouve fala da vida real e da alma: “tenho medo de pensar,
o meu mistério eu avivo se me perco a meditar”. É a
união de duas culturas que muito têm em comum, Portugal
e Argentina.
Parabéns
a toda a organização do espectáculo e bailarinos,
e até para o ano. |